segunda-feira, 17 de março de 2008

Carlos Drummond de Andrade

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

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Amor e Seu Tempo

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe.

Valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida.
Amor começa tarde.

Poeta, cronista, contista e tradutor brasileiro. Sua obra traduz a visão de um individualista comprometido com a realidade.O poeta trabalha sobretudo com o tempo, em sua cintilação cotidiana e subjetiva, no que destila do corrosivo, no que desmonta, dispersa, desarruma, do berço ao túmulo - do indivíduo ou de uma cultura.
Em Sentimento do mundo (1940), em José (1942) e sobretudo em A rosa do povo (1945), Drummond lançou-se ao encontro da história contemporânea e da experiência coletiva, participando, solidarizando-se social e politicamente, descobrindo na luta a explicitação de sua mais íntima apreensão para com a vida como um todo. A surpreendente sucessão de obras-primas, nesses livros, indica a plena maturidade do poeta, mantida sempre.

Danilo Sátiro.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.

Fernando Pessoa

É, Fernando Pessoa tá em alta aqui nesse blog. Mas é porque sempre tem coisas legais dele.. Então, vamos postar =) Aliás, postar aqui está difícil. Maaaass, na medida do possível, mechendo uns pauzinhos aqui outros ali, traremos aos poucos poemas pra vocês =)
Abraço pessoal! Rosália Souza.

terça-feira, 4 de março de 2008

Álvares de Azevedo


Anjos do mar

As ondas são anjos que dormem no mar,
Que tremem, palpitam, banhados de luz...
São anjos que dormem, a rir e sonhar
E em leito d'escuma revolvem-se nus!

E quando de noite vem pálida a lua
Seus raios incertos tremer, pratear,
E a trança luzente da nuvem flutua,
As ondas são anjos que dormem no mar!

Que dormem, que sonham- e o vento dos céus
Vem tépido à noite nos seios beijar!
São meigos anjinhos, são filhos de Deus,
Que ao fresco se embalam do seio do mar!

E quando nas águas os ventos suspiram,
São puros fervores de ventos e mar:
São beijos que queimam... e as noites deliram,
E os pobres anjinhos estão a chorar!

Ai! quando tu sentes dos mares na flor
Os ventos e vagas gemer, palpitar,
Por que não consentes, num beijo de amor
Que eu diga-te os sonhos dos anjos do mar?



Soneto VII

Já da morte o palor me cobre o rosto,
Nos lábios meus o alento desfalece,
Surda agonia o coração fenece,
E devora meu ser mortal desgosto!

Do leito embalde no macio encosto
Tento o sono reter!... já esmorece
O corpo exausto que o repouso esquece...
Eis o estado em que a mágoa me tem posto!

O adeus, o teu adeus, minha saudade,
Fazem que insano do viver me prive
E tenha os olhos meus na escuridade,

Dá-me a esperança com que o ser mantive!
Volve ao amante os olhos por piedade,
Olhos por quem viveu quem já não vive!



Um poeta que ainda não teve um espaçinho no nosso blog: Álvares de Azevedo, um dos maiores expoenetes da 2ª geração do Romantismo(o mal do século, ou Byronismo, por conta de Lord Byron, que serviu de grande inspiração para este poeta).
http://www.mundocultural.com.br/index.asp?url=http://www.mundocultural.com.br/literatura1/romantismo/alvares.htm

sábado, 1 de março de 2008

Fernando Pessoa!

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te.
A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

{Ricardo Reis, 1-7-1916}



Nada sou, nada posso, nada sigo.
Trago, por ilusão, meu ser comigo.
Não compreendo compreender, nem sei
Se hei de ser, sendo nada, o que serei.
Fora disto, que é nada, sob o azul
Do lato céu um vento vão do sul
Acorda-me e estremece no verdor.
Ter razão, ter vitória, ter amor
Murcharam na haste morta da ilusão.
Sonhar é nada e não saber é vão.
Dorme na sombra, incerto coração.

{ Fernando Pessoa}


Danilo Sátiro!

domingo, 24 de fevereiro de 2008




Almost Blue
"Sirva-se de mais um drinque
A felicidade não estará no gelo,
mas quem sabe?
Aliás, quem sabe você não a encontre
no próximo gole?
Lembre-se de sorrir quando acenderem
o seu cigarro
e de não deixar a chama iluminar o descaso
que você tem em viver"

(Sem título)
"Seus olhos marejam com tanta felicidade.
Duas pedras cravadas em branco mármore,
pequenas bolotas castanho-escuro. Tão tristes
quanto umidecidas. Chora,
chora logo, antes que, de tanto conter-se,
seus olhos - em vez de lágrimas - rolem
feito bolas de gude."

Fernando Young, em Dores do Amor Romântico.

Fernanda Young tem seis romances publicados, incluindo "Atitmética", lançado pela Edioro em 2004. "Dores do amor Romântico" é o seu primeiro livro de poesia e, prevê a escritora, o único. Por este e outros motivos, trata-se de uma obra rara, onde o herói e voluntarioso amor, exposto com toda a sua coragem, precipitado, e claro, dor. Bem-vindo a este duelo, onde ninguém é poupado.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Fernanda_Young

Beeem.. Um pouco de literatura comtemporânea pra vocês. Fernanda Young tem apenas 38 aninhos, tem a biografia aí nesse site.

Blog estava desatualizado, porém não esquecido =) Sempre venho aqui e fico namorado ele.. Hehehe.. é um xodó só! Obrigado a todos que têm nos visitado. O motivo de não estarmos postando creio que seja tempo e material. Mas cá estou eu postando umas poesias pra vocês. Espero que gostem. Eu achei legal. E sim, créditos pra Tarcila Valéria, o livro de onde extraí as poesias é dela! Hhehehe.. Aproveitando a seção créditos: vejam(quem quiser) meu flickr, essa foto foi de lá.
http://www.flickr.com/photos/rosa_souza
Um beeeeijo. Rosália Souza.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Fernando Pessoa!


"Nesta vida, em que sou meu sono,
Não sou meu dono,
Quem sou é quem me ignoro e vive
Através desta névoa que sou eu
Todas as vidas que eu outrora tive,
Numa só vida.
Mar sou; baixo marulho ao alto rujo,
Mas minha cor vem do meu alto céu,
E só me encontro quando de mim fujo.

Quem quando eu era infante me guiava
Senão a vera alma que em mim estava?
Atada pelos braços corporais,
Não podia ser mais.
Mas, certo, um gesto, olhar ou esquecimento
Também, aos olhos de quem bem olhasse
A Presença Real sob disfarce
Da minha alma presente sem intento."

Fernando Pessoa, nascido em Lisboa no dia 13 de junho de 1888, foi aclamado não apenas como o maior poeta português do século XX, como também figura entre os melhores do mundo.
Sua obra complexa e com forte teor filosófico suscitou, em um ensaio crítico, a indicação de Roman Jakobson (lingüista russo), para que seu nome seja incluso entre artistas do porte de James Joyce, Pablo Picasso e Igor Stravinski.
Danilo Sátiro.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Ainda uma vez Adeus - Gonçalves Dias

I - Enfim te vejo! — enfim posso, Curvado a teus pés, dizer-te, Que não cessei de querer-te, Pesar de quanto sofri.Muito penei! Cruas ânsias, Dos teus olhos afastado, Houveram-me acabrunhadoA não lembrar-me de ti!
II - Dum mundo a outro impelido, Derramei os meus lamentosNas surdas asas dos ventos, Do mar na crespa cerviz!Baldão, ludíbrio da sorteEm terra estranha, entre gente, Que alheios males não sente, Nem se condói do infeliz!
III - Louco, aflito, a saciar-meD'agravar minha ferida,Tomou-me tédio da vida,Passos da morte senti;Mas quase no passo extremo,No último arcar da esp'rança,Tu me vieste à lembrança:Quis viver mais e vivi!
IV - Vivi; pois Deus me guardavaPara este lugar e hora!Depois de tanto, senhora,Ver-te e falar-te outra vez;Rever-me em teu rosto amigo,Pensar em quanto hei perdido,E este pranto doloridoDeixar correr a teus pés.
V - Mas que tens? Não me conheces?De mim afastas teu rosto?Pois tanto pôde o desgostoTransformar o rosto meu?Sei a aflição quanto pode,Sei quanto ela desfigura,E eu não vivi na ventura...Olha-me bem, que sou eu!
VI - Nenhuma voz me diriges!...Julgas-te acaso ofendida?Deste-me amor, e a vidaQue me darias — bem sei;Mas lembrem-te aqueles ferosCorações, que se meteramEntre nós; e se venceram,Mal sabes quanto lutei!
X - Tudo, tudo; e na misériaDum martírio prolongado,Lento, cruel, disfarçado,Que eu nem a ti confiei;"Ela é feliz (me dizia)"Seu descanso é obra minha."Negou-me a sorte mesquinha...Perdoa, que me enganei.
XVI - Dói-te de mim, que t'imploroPerdão, a teus pés curvado;Perdão!... de não ter ousadoViver contente e feliz!Perdão da minha miséria,Da dor que me rala o peito,E se do mal que te hei feito,Também do mal que me fiz!
XVII - Adeus qu'eu parto, senhora;Negou-me o fado inimigoPassar a vida contigo,Ter sepultura entre os meus;Negou-me nesta hora extrema,Por extrema despedida,Ouvir-te a voz comovidaSoluçar um breve Adeus!
XVIII - Lerás porém algum diaMeus versos d'alma arrancados,D'amargo pranto banhados,Com sangue escritos; — e entãoConfio que te comovas,Que a minha dor te apiadeQue chores, não de saudade,Nem de amor, — de compaixão,
Bem, como vocês deve ter percebido o poema não está completo. Ele realmente muito grande, então escolhi os versos mais marcantes do poema, quer quiser o link está aí em cima, e conferir o poema todo.
Gonçalves Dias , grande poeta do Romantismo da primeira geração,conhecida também como nacionalista ou indianista, é considerado o consolidador do Romantismo no Brasil.
No link acima, também traz informações do poeta. Quem quiser conferir, não irá se arrepender.
Desculpem a ausência,mas as aulas começaram e isso complica um pouco, mas faremos o possível para sempre atualizar o blog! E é isso,boa semana a todos e muita literatura! ^^
Danilo Sátiro.