domingo, 3 de agosto de 2008

Pedra e Bala - Cordel do Fogo Encantado



Juntem as forças pra seguir nessa jornada
Busquem as forças pra lutar na sua própria batalha
A poeira subiu de ambos lados
Arames farpados olhos e punhos fechados e cerrados
A faca marcada pela mesma vida seca como a terra rachada
Uma sombra densa e pesasda eclipsando o que há de melhor na sua alma
O verdadeiro terror mais sufocante que o calor
Essa é a sua jaula
Os desertos se encontram de várias formas
Seja no espírito no solo ou na mente através de idéias tortas
Que produzem gente morta em escala industrial
Guerra pela terra
A pedra contra o tanque
Guerra altera a terra nada será como antes
Na inverção dos papéis do pequeno Davi contra Golias o gigante
Como os barões das mega corporações
Gigante como o coronelado dos grandes e pequenos sertões
Como vários e vários e vários Ubiratans
Com seus sanguinários batalhões
Que na sua prepotência e ignorância bélica
Não conseguirão perceber a força e a chegada certeira daquela pedra
Juntem as forças pra seguir nessa jornada
Busquem as forças pra lutar na sua própria batalha
Um beijo seco no portão do teu ouvido
Quebrando cercas pra chegar na nossa mira
A pedra curte a bala corre e voa
A pedra fura bala transpassa
A bala é quente e a pedra é crua como um gole de cachaça
Velho como teu projeto louco
Forte como quem chora de medo
Guerra pela terra
A pedra contra o tanque
Guerra altera a terra nada será como antes
Escuto em alto-falantes aquele som de cimento dessa muralha sem fim
E desejo q pedra e a bala
A santa paz fora do jogo
Pois o que fala alto é a pedra e bala
Naquela praça onde as crianças brincam,
Naquele prédio perto das estrelas
Naquele circo no qual quando chove não há espetáculo

Música enorme, eu sei, mas merece sem dúvida ser lida com muita atenção e ser entendida. Pra falar a verdade todo o cd Transfiguração merece ser escutado, lido, sentido e entendido. Sempre escutei demais e fui me tocando no que ela queria dizer: Guerras, conflitos, a impotência dos desfavorecidos contra aqueles que detém o poder e a liderança. Lendo algumas coisas na internet e ouvindo opiniões de amigos fui descobrindo que fatos mais concretos estão presente na letra, como a guerra na palestina: Lirinha e BNegão disseram em uma entrevista na TV Cultura que a idéia da letra começou a nascer ao verem uma imagem, acredito que seja esta no iníco do post, em que palestinos jogavam pedras em tanques de guerra(Guerra pela terra, a pedra contra o tanque). Ouvi interprtações dizendo também que a música representa a guerra de canudos, abordada na obra Os Sertões de Euclides da Cunha, e aliás o subtítulo da música é Os sertões, então parece mesmo que tem haver(A faca marcada pela mesma vida seca como a terra rachada). E há ainda outro fato, que esse foi um dos mais marcantes, a palavra 'Ubiratan' pode não lembrar nada a vocês mas simplesmente Ubiratan Guimarães foi o coronel da PM que ordenou a invasão e o massacre na Penitenciária do Carandiru, em 1992. Quantos Ubiratans existem por ai? Vários.(Gigante como o coronelado dos grandes e pequenos sertões, como vários e vários e vários Ubiratans, com seus sanguinários batalhões). Acho que já deu pra entender a mensagem geral da música. A partir daqui, reflitam vocês sobre o mundo em que vivemos.

Se quiserem saber mais sobre as músicas do cd Transfiguração e sobre a banda:




Vocês podem achar que esse post não tem muito haver como o blog, mas na verdade tem. Todas as músicas desse cd tem uma referência à literatura, nesses dois primeiros sites tem falando sobre isso. Não relatei(de forma rápida) todas porque quis ressaltar essa em especial, quis entrar mesmo no assunto. E difícil dizer isso, mas acho que a melhor desse cd.


Lembrem-se: "...devo estar prestes, que meus ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem deixar intimidar..." (Vinicius de Moraes)
Com carinho, Rosália Souza.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Ensaio sobre a cegueira

"Está morta, disse a mulher do médico, e a sua voz não tinha nenhuma expressão, se era possível uma voz assim, tão morta como a palavra que dissera, ter saído de uma boca viva. Levantou em braços o corpo subitamente desconjuntado, as pernas ensaguentadas, o ventre espancado, os pobres seios descobertos, marcados com fúria, uma mordedura num ombro, Este é o retrato do meu corpo, pensou, o retrato do corpo de quantas aqui vamos, entre estes insultos e as nossas dores não há mais do que uma diferença, nós, por enquanto, ainda estamos vivas."

Eis aqui uma das mais marcantes passagens do livro Ensaio sobre a cegueira de José Saramago, escritor português ganhador do nobel em literatura.
Pra quem não conhece esse livro conta a história de uma sociedade em que todos ficaram repentinamente cegos, e junto com a visão foi-se também a idéia de humanização. A história se segue relatando um verdadeiro inferno, como se pode ver nesta passagem, em que mulheres bem ditas na sociedade precisam se dar aos malévolos para garantir seu pão de cada dia.
Leiam o livro, é mais interessante do que eu falando.. Rs...
E sim, há rumores de que será lançado um filme baseado nesse livro, ou melhor, mais do que rumores há notas na internet..
http://www.cinepop.com.br/filmes/ensaiosobrecegueira.htm





Cenas do filme Ensaio sobre a cegueira(Blindness)

Rosália Souza.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

"O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita, o amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços e minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
...
O amor comeu minha paz e minha guerra, meu dia e minha noite, meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte".

(incompleto)

Os três mal-amados - João Cabral de Melo Neto.
Muito lindo declamado por Lirinha, vocalista do Cordel do Fogo Encantado.
Pois é.. João Cabral de Melo Neto, "compreende"? Grande escritor.. ÉÉ! Primo do Manuel Bandeira e Gilberto Freyre; autor de Morte e Vida Severina, que foi musicado por Chico Buarque... E por aí vai :)
Aquele abraço, Rosália Souza.

domingo, 22 de junho de 2008

Mestre Caeiro.

Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é.



• É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o sol, levantando a mão direita.
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus,
Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada.


{Alberto Caeiro}
Heterônimo de Fernando Pessoa, Alberto Caeiro é considerado o mestre supremo de todos os heterônimos de Pessoa, homem do campo, Caeiro é o 'poeta sensação', ligado às percepções e à natureza. {Pertencente ao Modernismo Português}
Poemas extraídos do livro: Poemas Completos de Alberto Caeiro.

Ah, e a foto é do jardim lá de casa, xD~
Excelente semana para todos. :*

Danilo Sátiro.

domingo, 8 de junho de 2008

Ler Clarice é...

Ler Clarice é viver em permanente estado de paixão.
Ler Clarice exige uma mudança de postura do leitor no modo pelo qual ele se aproxima do texto. É que o texto de Clarice pede uma escuta atenta, uma entrega de quem o lê. Clarice fala de coisas presentes no nosso dia-a-dia, o modo pelo qual reagimos aos acontecimentos mais banais, como andar na rua, olhar-se ao espelho ou conversar com um amigo. Ela nos mostra, também, outras coisas vivenciadas interiormente, aqueles momentos sem palavras dos quais só o nosso coração testemunha.

Clarice escreve textos como quem vai desvelando a realidade, sondando os gestos, os olhares; tudo tão sutilmente que quando o leitor se dá conta vê-se diante de um instante mágico, especial, ao reconhecer a sua vida, a si mesmo, através daquelas palavras.Ler Clarice é uma oportunidade de mudar o seu olhar diante do universo. É estar disponível para se aventurar no seu interior de forma irracional, sem censuras. Deixar-se levar pela imaginação, pela intuição e usá-las como forma de conhecimento.

Ao publicar A paixão segundo G.H., Clarice escreveu uma pequena nota introdutória onde pedia que este livro só fosse lido por pessoas de alma já formada. Isso mostra até que ponto pode-se absorver o que o seu texto diz. Ao ler Clarice deve-se estar disposto a aceitar o não entendimento de determinados processos da vida. Clarice dizia: “Suponho que entender não seja uma questão de inteligência, mas uma questão de sentir, de entrar em contato.” Isso faz parte do caminho aberto pelo seu texto. Cada leitor contém a sua bagagem particular de experiências, sensações, acionadas no momento da leitura; Clarice sabe disso e valoriza estas particularidades. Seu texto é um convite permanente ao "viver ultrapassa todo o entendimento" (palavras de Clarice).

Clarice escreveu crônicas, contos, romances, livros infantis, reportagens, páginas femininas, uma peça teatral, enfim, exercitou-se em diferentes registros de textos, mas imprimiu sua marca em todos eles: o texto interroga, faz o natural parecer sobrenatural, imprime um sentido ainda desconhecido por nós.

Viver essa experiência de ser leitor de Clarice é uma aventura no que ela tem de imprevisível, surpreendente, perigoso, ao mesmo tempo é um presente porque quando se está lendo Clarice você se sente especial dentro deste universo criado por ela. Especial porque você consegue se reconhecer como um ser humano cheio de limitações, sujeito às adversidades da vida, ao fracasso, às crises, mas também capaz de trilhar um caminho repleto de descobertas, de sustos, de grandes alegrias, de momentos de êxtase, vertigens, delírios.
Ler Clarice é a possibilidade de viver intensamente o que se é.

(Teresa Montero)

Teresa Montero é doutora em Letras pela PUC-Rio, autora de Eu sou uma pergunta – uma biografia de Clarice Lispector (1999), organizadora de Correspondências – Clarice Lispector (2002), Outros escritos e Aprendendo a viver imagens.

Retirado do site:
http://www.claricelispector.com.br/
Visitem, muito bom! =)


Danilo Sátiro.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Referência ao Modernismo

Amar

Que pode uma criatura senão,
senão entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade.



Estudando o Modernismo vejo coisas muito legais. Esse grito ao direito da voz brasileira, essa agitação, fazer algo e não deixar que ditem nossas regras, literalmente, recriar o Brasil. Drummond não é meu preferiro, mas reconheço o quanto, como tantos outros, ele é bom. De Clarice nem preciso falar. Cecília, Graciliano com suas inovações, Rachel de Queirós representando a voz feminina.. Mundinho fascinante =) Por isso hoje e sempre, se interessem por literatura! Essa arte vai além de palavrinhas difíceis dispostas em métricas, ela é na verdade um relato, uma reflexão de tudo aquilo que nos ronda, por tanto é indispensável que leiamos para que não nos tornemos alienados e possamos, como nossos antecepassados, ter direito à um grito brasileiro.

Rosália Souza.

terça-feira, 6 de maio de 2008

M.B.




















Balada do rei das sereias
(Dorival Caymmi e Manuel Bandeira)

O rei atirou
Seu anel ao mar
E disse às sereias:
- Ide-o lá buscar,
Que se o não trouxerdes
Virareis espuma
Das ondas do mar!

Foram as sereias,
Não tardou, voltaram
Com o perdido anel
Maldito o capricho
De rei tão cruel!

O rei atirou
Grãos de arroz ao mar
E disse às sereias:
- Ide-os lá buscar,
Que se os não trouxerdes
Virareis espuma
Das ondas do mar!

Foram as sereias
Não tardou, voltaram,
Não faltava um grão.
Maldito capricho
De mau coração!

O rei atirou
Sua filha ao mar
E disse às sereias:
- Ide-a lá buscar,
Que se a não trouxerdes
Virareis espuma
Das ondas do mar!

Foram as sereias...
Quem as viu voltar?...
Não voltaram nunca!
Viraram espuma
Das ondas do mar.







Dorival Caymmi? Sim, foi assim que achei na internet, mas não tenho certeza, pois no livro que estou lendo de M.B. não faz nenhuma menção à este fato. E sobre o livro, o dito cujo é Estrela da vida inteira, reune sua poesia completa, é óóttimo!
Pobre Manuel, teve uma vida tão atormentada, como deve ser viver esperando a morte?

Bem, não é um poema ÓÓÓ :O, mas eu achei super engraçadinho! Quando li, gostei =)
E pra fugir um pouquinho da minha eterna temática, ninguém merece tanta tristeza.. rs..

Bem, sem mais demora.. Abraço!


Rosália Souza.